Espaço para viver

January 11, 2012

Curioso como pedalar uma bicicleta é paradoxal.  Ao mesmo tempo é preciso se atirar e estar guiando.  Precisa saber como fazer, mas não pensar muito nisso. Se tentar controlar demais, se dana. Existe uma técnica sim, mas ela precisa coexistir com um certo abandono, especialmente no primeiro impulso. E existe também uma certa simplicidade para que ela ande. Porque apenas uma ação permite isso – não parar.

Ainda assim, há momentos em que caio num ziguezague, e às vezes consigo controlá-lo, outras não. E ir ao chão com toda a força foi uma das sensações mais gostosas que experimentei.

Sei agora a angústia que os ciclistas passam nessa cidade, como somos enjaulados aqui no Rio.  É um aperto muito grande, que ninguém deveria passar na vida.

Maturidade

August 28, 2011

Cresci, como é de praxe

Deixei pra trás o egoísmo

O eu, eu, eu, eu quero, eu sou, eu sei

Aprendi que não se pensa nem age

Sem olhar em volta

Que a inconsciência é abominável

Então acordei

E parei de ser só eu

E deixei de pensar “eu quero”

Para dizer “eu devo”

E me forcei a abrir mais os olhos

Pois tinha que ver tudo

E saber tudo lá de fora

Pra não viver mesquinhamente

E acabou dando certo

Me transbordam consciências

Não há mais eu

Não mais sou, nem sei

Nem quero

A escolha do fardo

June 27, 2011

Às vezes, em meio à loucura, paro.  Bem no meio da correria. Paro e tudo perde o sentido.  A rotina tão óbvia e natural de repente é absurda, vã e estúpida.  Era tão simples, automática, e agora pesa chumbo. Tudo por ter parado um minuto. Por ter pensado. Nem desejado, sequer. No passado, a liberdade era um sonho. E hoje, sei: o que restaria? O que,  no lugar de toda essa patética certeza, fiel, presente e confiável?

Teria nada e teria de tudo. Qualquer coisa. E o peso, então, multiplica-se pelo infinito. O que é realmente insustentável?

Tudo isso só num minuto. As correntes se afrouxaram. Quase desabo. Daqui, o abismo parece mesmo sem fundo. Não é desta vez que vou descobrir. Agarro-me às correntes, uma vez mais.

Sagitta

January 4, 2011

Sempre apontada para cima,

E não em frente

A uma altura tão absurda

Que não se enxerga o alvo

Este é só imaginado

Fica além das estrelas

Além desta galáxia

Além do que é tangível

Esticada,

Pronta para a jornada,

Ela nunca se cansa

E nem pode

É uma viagem sem volta

E o perigo de se perder no caminho

É certo

Tão longe alveja, tão impossivelmente longe

Que é preciso correr enquanto se mira

Correr quase junto com a flecha

E assim, ao ser disparada

Já errou, o alvo muda…

 

 

ABISMO

December 4, 2010

Queria da vida uma imensa aventura

Daquelas que levam a gente pra longe

Longe de tudo o que é conhecido

Não suporto mais me conhecer

Fujo para o estranho e o distante

Fujo de ter que olhar para dentro

Seria tão simples se conseguisse

Atirar-me ao mundo livre de mim

Atirar-me a ele, inteira pra ele

Pura e sem mesquinharias

Mas não adianta, estou sempre aqui

Presa nos meus egoísmos

Sem ter como escapar

Conhecer a grandeza do universo

Percorrer grandes distâncias

Por que penso tão pequeno, tão estreito

Quando se trata de mim?

Como foi que me tranquei

Aqui, dentro da mente?

Que posso eu com minhas miudezas

Nessa vastidão infinita

Cheia de descobertas inimagináveis

Para os que se transcendem

Mas quando penso em mim

Com minhas limitações

Tudo perde o sentido

Esse mundo enorme perde o tamanho

A importância

E a graça

E não acredito mais no que sinto

No que penso, ou no que faço

Apenas sei da fatalidade

Da minha eterna cegueira

Da eterna apatia

Cada vez mais acolhedoras

Conforme tudo escurece…

 

Extremos

November 17, 2010

O que acontece se abandono tudo

E desisto do controle?

Encontro minha verdadeira essência

Fico livre para sempre?

Ou serei apenas fracassada

Que perdeu a luta

Contra instintos primários?

Afinal, qual é a natureza

A verdadeira liberdade?

O domínio da mente?

Ceder aos impulsos?

Ambos me escravizam

O meio termo é desumano

E me enoja

Maremoto

June 27, 2010

Às vezes tenho em mim um desejo de Morte

Que não é bem desejo de morrer;

Mas uma ânsia pela quietude

Pelo silêncio da Morte

O silêncio de todas as coisas vivas

Uma ânsia pelo cessar absoluto

de todo ruído e movimento

de qualquer manifestação física

Então, busco essa paz

Deito e fecho os olhos

E vem o turbilhão

Na minha mente, as vozes

Gritando, exigindo tudo

Todas as emoções de que me privo

Toda a agitação que eu não vivo

Sacodem-me a alma

Implorando para serem reais

Para rasgarem o marasmo

Com toda a brusquidão da Vida…

Saudades…

June 15, 2010

O que faço no dia em que o sonho perder o encanto? No dia em que perceber que somente a realidade basta? O que faço quando me der conta de que o sonho não existe por si só, que precisa da realidade, que precisa se realizar? Será o dia em que acordarei. E todo aquele universo inatingível além da imaginação perderá o sentido. Terei que inventar uma forma de sonhar o mundo. Não o meu mundo, mas o que existe. E o sonho será alcançável, e terei que lutar por ele, não mais apenas sonhá-lo. E sentirei saudades de sonhar…

FOGO

June 4, 2010

Sou o fogo que destrói,

Aquele que devasta

Sem controle

Não o que aquece

Ou purifica

Mas queima, consome

Até as cinzas

E se vai…

Chamas que não se fixam um instante

Para trazer a luz

Passam desgovernadas

Levando a vida

Deixando a morte

Sem se prenderem

Sem rodear com seu calor

Para que alguma coisa renasça…

Mãe Lua

February 2, 2010

Domingo passado, uma inquietude sem explicações me põe super irritada. Pior ainda, me faz irritar a todos.  Uma mistura de todas as emoções, sentimentos e pensamentos querendo vir à tona.  Embora a necessidade de expressá-los seja insuportável,  nada consigo extrair do caos.  Nada é claro, lúcido.  Há uma nuvem tempestuosa me encobrindo.

A aflição só cresce até os nervos estarem à flor da pele, no limite da loucura.  Na falta de concentração, acabo saindo pra noite. Noite, porque a manhã toda se passou nessa ânsia. Fazia tempos que não saía assim, abruptamente.

E lá fora, redondona e avermelhada, aquela lua enorme.  Já não é a primeira vez que sinto que ela chama seus filhos, quando está em sua fase cheia.  Levantando  em nós humores, como levanta a maré.  E só sossega quando nos apresentamos diante dela, só para vê-la.  Para que os olhos se encham ao contemplá-la, hipnotizados.  Olhei para ela,  e entendi que tinha que ter prestado aquela homenagem. Que não poderia ter ficado em casa indiferente, que aquela inquietação toda não se dissiparia enquanto não tomasse um banho de raios prateados.


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